100 anos | 1925 - 2025

Biografia

Alberto Massuda nasceu no Cairo, em 2 de janeiro de 1925, com o nome de Ibrahim Massouda. Cresceu sob os preceitos da doutrina judaica caraíta, marcada pelo rigor e pela fidelidade às tradições. No ambiente familiar, viveu uma infância culturalmente rica: enquanto o pai se dedicava aos negócios da família, a mãe, Rachel, encontrava nas artes um campo de expressão constante.

A primeira infância foi, para Ibrahim, um tempo de descobertas e vínculos que o acompanhariam ao longo da vida. Desde cedo, demonstrava habilidade incomum para o desenho. Foi Rachel quem percebeu esse talento e o incentivou a desenvolvê-lo. Aos 13 anos, ele ingressou em uma escola de desenho e pintura, onde conheceu o professor Hussein Amin, que se tornaria seu principal mentor artístico.

Enquanto Ibrahim crescia e descobria sua vocação, o país onde nascera atravessava um período de profundas transformações. Ainda muito jovem, assistiu ao avanço do movimento nacionalista egípcio. Nos anos 1940, o Egito vivia um cenário de intensa instabilidade social e política. A perseguição à comunidade judaica se intensificou, e o Estado passou a confiscar bens de famílias judias, entre elas a dos Massouda.

Em 1945, Ibrahim ingressou na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Cairo. Nesse período, aproximou-se dos movimentos de arte moderna que agitavam o cenário cultural egípcio, como o Art et Liberté (1938–1948) e o Groupe de L’Art Contemporain (1946–1955).

Em 1951, aos 26 anos, utilizou a cidadania italiana adquirida por seu pai anos antes e seguiu para a Itália, adotando o nome de Abramo Massuda. No ano seguinte, casou-se com Carmina Massari. Dessa união nasceram três filhos: Cadri, Stefania e Ruben.

À medida que a tensão política se aprofundava, a comunidade judaica praticamente desaparecia do Egito, e o silêncio imposto aos artistas tornava-se quase absoluto. Essa conjuntura marcou a ruptura definitiva de Massuda com sua terra natal. A partir desse ponto, sua vida — e sua produção artística — passaram a carregar de forma permanente a experiência do exílio.

Em 1958, Massuda e sua família embarcaram em um navio rumo ao Brasil, em uma travessia de cerca de 20 dias. Após uma breve passagem por Porto Alegre, estabeleceram-se em Curitiba. Foi ali que o artista adotou definitivamente o nome de Alberto Massuda. Rapidamente, integrou-se ao meio artístico local e começou a participar de exposições. Em pouco tempo, recebeu seu primeiro reconhecimento no país: a medalha de prata no Salão de Arte Paranaense, em 1959.

Apesar do respeito conquistado entre os colegas, viver exclusivamente da arte não foi simples. Os primeiros anos no Brasil foram marcados por carências materiais. Para sustentar a família, Massuda pintou móveis, produziu artesanato e confeccionou bijuterias, até encontrar um caminho no qual passou a se reconhecer plenamente: o magistério. Como professor de Arte, ofício que exerceu por muitos anos, encontrou não apenas uma fonte de renda, mas um espaço de troca, formação e prazer.

Sua trajetória foi inteiramente dedicada à arte. Participou de dezenas de exposições e tornou-se um dos precursores do surrealismo no Paraná. Manteve um círculo próximo de amigos artistas, com quem se reunia com frequência para conversas sobre filosofia, política e criação artística.

Alberto Massuda viveu em Curitiba até sua morte, em outubro de 2000. Deixou como legado uma obra marcada pelo deslocamento, pelas transformações, pelo pensamento crítico e pela arte compreendida como modo de existir e resistir.

Linha do tempo

O Artista

Alberto Massuda era um sonhador. Foi no surrealismo que ele encontrou a linguagem artística para expressar sonhos, imagens do inconsciente e símbolos que escapam à lógica. 

No Brasil, o surrealismo chegou por volta das décadas 1930 e 1940, poucos anos após a Semana de Arte Moderna de 1922. No Paraná, alguns nomes já flertavam com a vertente, mas foi Alberto Massuda quem se firmou como o precursor e maior representante. Pintor, poeta e filósofo, deixou uma obra marcada por anjos e demônios, ninfas pousando no espaço, mulheres, cavalos e mitologia egípcia. Sua arte refletia uma busca espiritual e existencial, muitas vezes transmitindo mensagens de paz e transcendência. Ao longo de sua carreira, manteve essa linha, produzindo textos, pensamentos poéticos e abusando de cores vibrantes que contribuíram fortemente para a intensidade emocional de suas telas.

Alguns críticos classificam sua obra também como expressionista, outra vanguarda artística europeia do início do século 20. Essa vertente realçou a subjetividade em uma reação ao positivismo do impressionismo e seu caráter mais técnico.

Art et Liberté (1938 a 1948) e Groupe de L´Art Contemporain (1946 a 1955)

As raízes do surrealismo de Massuda se firmaram ainda no Egito. Lá, ele encontrou um grupo de jovens artistas que compartilhavam de seus ideais tanto culturais como políticos. Ibrahim era uma criança pequena brincando de bola no beco judeu quando nascia o Grupo Art et Liberté, em 22 de dezembro de 1938, no Cairo, segundo registro do Centro Georges Pompidou, renomado instituto francês. 

 Liderados por Georges Henein e Kamel el-Telmisany, eles reagiam às opressões do colonialismo britânico, ao conservadorismo das elites locais e à política cultural nazista. O manifesto Vive l’art dégénéré denunciava a arte oficial e conclamava a ruptura estética e política. Em plena Segunda Guerra, o grupo realizou cinco exposições no Cairo, transformando a cidade em um polo de resistência cultural.

 Dessa semente nasceu, no final de 1945, o Groupe de l’Art Contemporain, do qual Massuda fez parte. Aos 20 anos, ele havia recém-entrado na Escola de Belas Artes, na Universidade do Cairo, mas já demonstrava insatisfação com o que era oferecido no curso, embora tenha completado a formação. Depois, cursou dois anos da pós-graduação em Pedagogia Artística e, ainda na Universidade do Cairo, foi professor de Artes de 1953 a 1955.

 O Groupe de l’Art Contemporain, assim como seu antecessor, teve um papel importante no despertar do espírito inquieto na cena artística egípcia. Sob a liderança do professor Hussein Youssef Amin, Massouda se uniu a nomes como Samir Rafi, Kamal Youssef, Abdel Hadi El-Gazzar, Hamed Nada e outros. O grupo articulava símbolos populares, mitos e elementos do campo egípcio em uma linguagem moderna, política e poética. Seu espírito contestador encontrou no coletivo uma forma de extravasar.

 Nos anos seguintes ao surgimento do Grupo, Ibrahim realizou diversas exposições coletivas e individuais. Em 1947, participou da Exposição Internacional de Arte, no qual teve pinturas premiadas pelo júri, além de uma tela vendida ao Ministério da Educação. Em 1948, no Museu de Arte Moderna, no Cairo, teve sua primeira exposição individual. 

Depois, em 1951, expôs no Lycée Français do Cairo. O convite da exposição, com texto assinado por Samir Rafi, o promove como um artista internacional, que eleva-se acima dos aspectos locais. “Sua arte reside em sentimentos e profunda expressão espiritual. Traz aspectos da escuridão e do subconsciente ocultos na alma e nos quais se baseiam a poesia, a filosofia e a expressão artística em geral. Seus personagens habitam em sonhos — e não na realidade”.  Sobre o trabalho de Massouda, o periódico destacou ainda o caráter social presente em suas obras. “É um artista por natureza, que não se importa muito com métodos ou estudos aprofundados. As ideias lhe invadem à cabeça e o tema supera o estilo”. Sua obra se caracterizava por figuras do campo egípcio — camponeses, animais, cenas rurais — representadas com uma poética que misturava nostalgia e crítica social.

Na década de 1950, Massouda participou da Bienal de Veneza, na Itália; dois anos depois, integrou uma exposição coletiva na Galeria André Maurice, em Paris. No ano seguinte, 1955 — mesmo período em que o Groupe de l’Art Contemporain chegou ao fim —, participou da Bienal de Alexandria, no Cairo, onde recebeu a medalha de bronze.

Vinda ao Brasil

No ano de 1958, Massouda embarcou com sua família ao Brasil, fugindo da perseguição política contra judeus, e em busca de um lugar onde pudesse exercer sua arte com mais liberdade. radicou-se em Curitiba e adotou o nome de Alberto Massuda. 

Em 1959, expôs no XVI Salão Paranaense, onde conquistou a Medalha de Prata. A partir disso, passa a participar ativamente dos movimentos artísticos da cidade, integrando-se ao movimento de renovação das Artes Plásticas do Paraná. Também participou do II Salão de Arte Contemporânea de Curitiba.

A trajetória de Alberto Massuda a partir da década de 1960 é caracterizada por uma profunda integração ao movimento de renovação das artes plásticas no Paraná, onde ele se destacou como um dos precursores do surrealismo local ao explorar uma linguagem deliberadamente fantástica. No início dessa década, Massuda já participava ativamente de salões, conquistando o prêmio de aquisição da Assembleia Legislativa do Paraná em 1961 e realizando exposições individuais em espaços como a Galeria Cocaco.

Sua conexão com o país foi selada em 1966, quando se naturalizou brasileiro e fundou o Grupo Um (GUM) ao lado de outros artistas, buscando renovar o cenário cultural local através de mostras em diversos espaços disponíveis.

Durante os anos 1970, sua carreira expandiu-se para o campo da educação e do reconhecimento institucional. Após participar da Pré-Bienal de São Paulo em 1970, Massuda iniciou uma prolífica atuação como arte-educador, servindo como orientador de desenho e pintura na Casa Alfredo Andersen entre 1974 e 1980.

Nesse período, ele também consolidou sua presença em grandes instituições paranaenses, realizando mostras individuais no Museu de Arte Contemporânea do Paraná e na Biblioteca Pública do Paraná, além de atuar frequentemente como membro de júri em diversos salões de arte.

A década de 1980 foi marcada por novas experimentações materiais e pela liderança em associações de classe. Entre 1980 e 1982, o artista dedicou-se à criação de cerâmicas decorativas que mantinham a temática e a sensualidade de suas pinturas.

Seu impacto na cultura de Curitiba foi oficialmente reconhecido em 1982 com a concessão do título de cidadão honorário da cidade. Além de lecionar no Centro de Criatividade e no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, ele assumiu o cargo de diretor cultural da Associação Paranaense de Artistas Plásticos em 1985.

Massuda também demonstrou um forte compromisso social ao trabalhar com crianças da rede pública no projeto “Artista Plástico e a Criança” do MAC/PR em 1986.

Nos seus anos finais, a carreira de Massuda foi celebrada através de grandes exposições retrospectivas que marcaram suas décadas de permanência no Brasil, como as mostras de 30 anos, em 1989, e de 40 anos, na PUCPR em 1998.

Alberto Massuda faleceu em outubro de 2000, em Curitiba, pouco depois de realizar uma retrospectiva de sua obra no Museu de Arte do Paraná. Seu legado artístico, que une a pintura à poesia, está preservado em importantes acervos ao redor do mundo, desde o Cairo até Dubai, e ele permanece como uma figura central nos principais dicionários e enciclopédias de artes plásticas do Brasil.